Mãe é mãe...

No auge da minha adolescência, eu era um homem múltiplo. Jogava futebol no Inter, fazia judô no Gaúcho e nadava no Maury Fonseca. Não tinha dia que eu não tivesse no mínimo duas atividades. Sem contar as aulas de piano e tantas outras coisas que minha família tinha me arrumado.

“Cabeça vazia é oficina do diabo”, dizia meu avô.

E eu tinha o dia inteiro lotado... das seis da manhã até as oito da noite.

Só que havia um problema... eu chegava em casa MORTO DE FOME!

E nada me satisfazia. Eu vinha no trajeto de volta para casa pensando no que eu comeria... chegava rastejando, parecia um somáli que adentra uma churrascaria!

Bom... Meus omeletes nunca tinham menos do que oito ovos. O normal eram uma caixa (12). Meus sanduíches tinham sempre cinco ou seis andares. E Nescau... eu tomava um litro na sentada. A mesa era um furdúncio, eu comia tudo que tinha pela frente. E tenho testemunhas pois era o assunto da família.

Fora minha mãe, que todo o dia, dizia a mesma coisa:

- Come devagar, guri! O mundo não vai acabar hoje! Tu come e geme ao mesmo tempo! Um dia vai te dar um troço!

Bom... todos os dias ela dizia isso.

Só que barriga cheia também é oficina do diabo! Quer dizer, cabeça cheia!

De tanto ouvir a mãe dizer que iria me dar um troço, resolvi fazer uma grande besteira, que, na hora, me pareceu divertido!

Eu estava realmente satisfeito... tinha comido praticamente tudo que apareceu na minha frente! Estava sentado à mesa, admirando as ruínas que restaram da guerra gastronômica daquela tarde, enquanto minha mãe e irmã viam novela na sala, que ficava bem na entrada da cozinha.

Primeiro olhei bem a mesa.

Copo de Nescau vazio, farelo de pão pra tudo que era lado, meia fatia de queijo e nenhuma de presunto no porta-frios...

A panela do omelete com mais ou menos 1/12 de sobra. Tudo que eu precisava estava cirurgicamente pronto!

Rá! Me deitei no chão, e fiquei em uma posição como se tivesse caído do banco... peguei o banco com uma mão e atirei pra cima. Quando ele caiu, deu um estouro, e então, me fiz de morto, com os olhos bem estalados... Hehehehe!

Imediatamente, ouvi uma voz falar da sala:

- Augusto? Augusto? Aaaaaiiiii, meu Deus!!!!! Augusto!!!! Augusto!!!!

E minha irmã gritando atrás dela:

- Ai, mãezinha! Ai, mãezinha! Ai, mãezinha!

Quando chegaram bem perto, não agüentei e desatei a rir!

Minha mãe me encheu de pontapés no chão mesmo...









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