Festa em família

Festas de família são sempre grandes ocasiões! Principalmente, para treinar sua “psicologia de disseminação inverídica”; desinformação, a habilidade de semear raiva e discórdia, Sun Tzu e a Arte da Guerra. Fake News.

Principalmente se não for a SUA família, onde o pessoal não sabe brincar e fica de mal por anos, até mesmo com algumas vias de fato.
Mas vamos lá. Se você souber se colocar numa posição estratégica, no ambiente, num canto da festa, e tiver um pouco de paciência, em poucas minutos, você será um “Forças Especias” no campo inimigo; terá aliados que nem imaginava, e verá o pau quebrar instantaneamente na festa. É como pescar em um aquário.

Procure ficar perto das tias ou das avós. As mais velhas, de preferência. Elas gostam de companhia, e, em poucos minutos, começa a fofocaiada. Roupas, moda, vida dos outros... Aguarde pacientemente o momento, ele não demora a chegar. Fique com aquele olhar de quem não está prestando atenção no papo, até ouvir o comentário chave de uma delas, ou seja, a senha para agir. Alguém irá dizer:
- Vocês sabiam que fulano morreu?
Essa é a deixa. Tias, avós, primas, vizinhas... não falha.
Espere elas explanarem (fazem aqueles “óóóhh... não brinca?! Tão novo!), e largue a bomba. Seja sutil, sem chamar muito a atenção. Procure a mais velha do grupo (elas respeitam mais), e diga baixinho, só pra ela:

- Foi uma maionese estragada.
Espere dois minutos e saia de perto, de fininho. Procure um lugar seguro e algo pra beber. Essa maionese estragada vai estragar toda festa, além do finado que nem comeu a maionese.

A Rainha do Clã irá proferir sua frase como se fosse um mandamento, provavelmente em voz alta:
- Também, encheu a barriga de maionese estragada, aí não tem como mesmo...
- Óóóhhh! Foi maionese, é?! Que horror!
- Que agonia, morrer de maionese!
- Pois é, a tal “salmão nela”, diz a vizinha, (enquanto uma das tias faz cara de nojo pelo mau uso da língua portuguesa).
- Mas também; estava sempre morto de fome, nunca vi uma pessoa comer tanto que nem ele, uma hora ia dar problema...
Outra:
- Mas olha a idéia da criatura, comer maionese nesse calor! Que ele achou que ia acontecer?!

Nisso, vai chegar uma lata de cerveja carregando um tio. Ou vice-versa. Sempre aparece um nessa hora, ele vê a conversa ganhando corpo, e vem.

Pode apostar, irmão, não é a primeira latinha que ele tomou de estômago vazio. Ele vai ouvir um pouco mais das teorias da ala feminina sobre maionese estragada, tentando parecer não estar bêbado, mas vai se entregar com um comentário do tipo:
- Por isso que eu falo, maionese e c... a gente só come em casa!
E ele vai rir da piada.

Você vai notar nos olhos dos primogênitos uma expressão de “caramba, mamãe faz essas coisas?! Pqp!!!”, enquanto, imediatamente, a mãe toma a cabine de assalto, e abre os reversos do pai, na decolagem.

Uma piada inocente, ou um comentário desnecessário e difamatório, na frente da família? É pra acabar. Ela poderia dizer “se comporte, aquilo não foi bonito”, mas a geração antiga, das tias, pega mais pesado. O tio da cerveja, agora pai, entra em modo “cara de paisagem”, enquanto a tia (mãe) passou pro modo “conversa ao pé do ouvido dele”. No canto. A sós. “Sabe quanto vai custar só o psiquiatra dos filhos?” é uma das frases ouvidas no grupo das tias, algumas apavoradas, outras, rolando de rir. A Rainha do Clã lança seu olhar de reprovação. Não adianta, o Mal está feito. As crianças pequenas, presentes na festa, já aprenderam um ditado novo que está sendo repetido pela casa, enquanto correm umas atrás das outras.
Imagine o colégio na segunda-feira.

Murphy dizia que “se algo tiver a mínima chance de dar errado, dará”.
Mas ele não previu que algo errado pode piorar.
Chega o apogeu da festa.
Entre mais comentários sobre o morto e a maionese maldita, tentando isolar o casal em DR, uma das sogras, lógico, olha pra travessa de maionese sobre a mesa do churrasco com cara de quem já provou tudo na vida e gostou de pouca coisa.

A nora, que trouxe a maionese não vai esperar um comentário degradante sobre o prato dela. O olhar sogrístico já é uma afronta sobre sua criação, de 3 gemas e 3 latas de óleo, fora o esforço hercúleo de bater tudo, no garfo (sem contar as batatas).
- Pode parar AGORA, porque a minha maionese não está estragada!
- Ué, eu nem falei nada; diz a sogra enquanto enche o prato só de tomate e cebola, numa velocidade reduzida ao servir-se, mostrando nítida provocação e cinismo... Aquele olhar pro filho, dizendo “eu te avisei antes de casar”, incendeia um ambiente que estava cheirando a gasolina azul.

A Bíblia fala numa passagem sobre “...ser motivo de discórdia entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra”, provando que Mateus era um sábio, e nem precisava de maionese pra isso. Nítida referência às festas em família.

Bom, está feito.

É um rastilho correndo em direção do paiol de munição. Festas de família são barris de pólvora, apenas aguardando uma faísca. Não seja egoísta, anime a festa. Sentimentos mais primitivos virão a tona do pessoal, apoiado pelos tios, alguns bêbados, outros muito bêbados, tentando por panos quentes. É quando sua mulher lhe hostiliza, e seu sogro fala “eu te avisei, tu quis casar, é igual a mãe...” (outro que já sai no modo “pé do ouvido no canto), enquanto toma a décima latinha;





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