Brincadeiras à parte...


Decidimos que a praia estava monótona e resolvemos ir acampar na beira de um lago que ficava poucos quilômetros da praia. Quando somos adolescentes, temos essas idéias bestas. Sair de casa, a duas quadras da praia, pra ir acampar de barraca num lago a 5km de caminhada por cima de dunas. Mas...

Chegamos no tal lugar. Armamos a tal barraca e comemos um monte de comida enlatada que tínhamos levado. Recém tinha passado o meio dia, e um dos camaradas resolveu deitar encostado numa árvore.

Só que continuávamos entediados... e cabeça vazia é oficina do diabo. Alguém achou uma cobra grande, e matou a pauladas. E aí, veio a grande idéia...

"Sicrano" era o cara mais fraco da turma. Não se metia em confusão, nem gostava de briga. De boa paz, mesmo. Só que naquele dia, depois de comer muita porcaria em lata, resolveu dormir no pé da tal árvore. E nós estávamos com uma cobra morta, espinhos cuidadosamente arrancados de um arbusto, um pedaço de pau, e a cabeça lotada de barbaridade.

Largamos a cobra bom do lado dos pés dele. Fulano, que já estava do lado da cobra, com um pedaço de pau grande, fazia força pra não rir. Eu estava com os dois espinhos na mão, levemente afastados um do outro. Estava tudo pronto.

Cravei com toda força os dois espinhos na sola do pé dele, e puxei rápido. Enquanto eu pulava em volta dele, Fulano mandava paulada na cobra morta, e Beltrano gritava "Mata! Mata que é venenosa!" Eu gritava algo do tipo "levanta! levanta que ela pode te picar!" enquanto Mosquito segurava o pé esquerdo e pulava no outro, olhando a sola de onde corriam gotas de sangue de dois furinhos.

Ele desatou a berrar, e ficou branco... "Ela me mordeu, porra! Fui mordido!" e nisso, Fulano já tinha "matado" a cobra na beirada da árvore.

Até aí a brincadeira tava divertida. Mas Beltrano veio com dois cocôs de cachorro, secos e de cor branca (os cocôs, não o cachorro...) e disse: "Peraí! Peraí que vou te fazer um chá de "jasmim" de cachorro, meu pai foi picado uma vez, tomou, e isso tira todo o veneno!"

Eu já não aguentava mais, tava explodindo pra rir... quando Sicrano pegou um dos "jasmins" enfiou na boca e disse com os olhos cheio dágua: "Vai fazendo o chá com esse aí, que eu vou roendo esse aqui pra dar efeito mais rápido, porra!".

Não nos aguentamos. Fulano mijou nas calças, de tanto rir. Eu não conseguia nem ficar de pé... E Alano falou "Tu é bobão, Sicrano. Eles armaram isso tudo. A cobra já estava morta."

Ele pegou o pau que tinhamos usado pra matar a cobra, e deu em todo mundo. A gente não conseguia segurar ele. Tomei uma paulada nas costas que fiquei sem respirar uns 10 segundos... Ele quebrou todo mundo, e não adiantava correr porque ele dava pelas costas. Ficou uns 10 dias sem falar conosco.

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